Em algumas situações,
tenho declinado de conduzir processos seletivos. O motivo não é a falta de
candidatos, mas a combinação entre remuneração oferecida, escala de trabalho e
condições da vaga. Minha experiência como recrutador me faz questionar se
conseguirei encontrar alguém que, além de aceitar a proposta, queira permanecer
nela. Não se trata de desvalorizar o trabalho ou de generalizar o comportamento
dos candidatos. Mas tenho observado um problema: quando as condições oferecidas
não correspondem às expectativas de quem procura emprego, a contratação pode
resolver uma necessidade imediata da empresa sem resolver seu problema de
pessoal. Quem aceita, muitas vezes por necessidade, continua procurando
oportunidades melhores. A empresa preenche a vaga. Mas será que conquista o
profissional? Essa reflexão ganha ainda mais relevância com o fim da escala
6x1. Em 16 de outubro, o Congresso promulgou a mudança constitucional que prevê
dois dias de descanso remunerado por semana e a redução gradual da jornada
máxima de 44 para 40 horas, sem redução salarial. A adaptação começa em 60
dias, com transição prevista para 12 meses. A mudança é real; o desafio agora é
como implementá-la. Para os trabalhadores, significa a possibilidade de mais
tempo para a família, o lazer, os estudos e a própria vida. Para as empresas,
especialmente aquelas que operam todos os dias, representa a necessidade de
rever escalas, dimensionamento de equipes, custos e processos. Seria um erro
ignorar qualquer um desses lados. Mas também seria um erro imaginar que manter
jornadas extensas e condições pouco atrativas não tem custo. A rotatividade
exige novas seleções, integração e treinamento, além de comprometer a
produtividade e sobrecarregar quem permanece. O menor custo aparente de uma
contratação pode esconder despesas que só aparecem depois. Isso não significa
que toda empresa possa simplesmente reduzir a jornada sem reorganizar sua
operação. Comércio, restaurantes, serviços e indústria têm realidades
distintas. Algumas atividades exigirão novas contratações; outras poderão
encontrar oportunidades na revisão de processos, na tecnologia e na
distribuição das tarefas. É justamente aí que o debate precisa amadurecer. A
questão não é apenas quantas horas as pessoas devem trabalhar, mas como
organizar o trabalho para produzir resultados sem depender do esgotamento de
quem o realiza. O RH tem papel estratégico nessa transformação: analisar
indicadores de rotatividade, ouvir as equipes, revisar jornadas, desenvolver
lideranças e ajudar a redesenhar processos. Não basta preencher vagas. É
preciso criar condições para que as pessoas queiram permanecer. No Mercado de
Trabalho 2030, talvez a vantagem competitiva não esteja em encontrar quem
aceite trabalhar nas condições disponíveis, mas em construir condições capazes
de atrair e reter bons profissionais. A pergunta, portanto, não é apenas se a empresa
consegue funcionar com menos horas de trabalho. É se ela está preparada para
continuar funcionando bem sem depender de pessoas que já estão procurando uma
saída.
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