As eleições passam.
Aos poucos, o ambiente de negócios começa a olhar para o novo cenário político
e para os enormes desafios que os próximos governantes terão pela frente. É
possível que a definição das urnas reduza parte das incertezas que marcaram os
últimos meses. Mas, enquanto acompanhamos esse movimento, uma conversa que tive
esta semana me levou a uma reflexão diferente sobre o futuro do trabalho. Conversei
com duas jovens trabalhadoras. Uma estava na portaria do meu condomínio. A
outra, no caixa de um supermercado. Ambas trabalharam durante a eleição e,
portanto, não votaram. O que me chamou a atenção não foi a ausência às urnas.
Foi a justificativa. As duas disseram, de maneiras diferentes, que não viam
problema em não votar porque não acreditavam que o voto ou os políticos
pudessem melhorar suas vidas. São apenas duas histórias. Não pretendo
transformá-las em retrato de uma geração. Mas foram suficientes para provocar
uma pergunta. O que acontece quando uma pessoa deixa de
acreditar que sua participação pode produzir alguma mudança? Talvez essa pergunta
ultrapasse o campo da política. Ela também chegou ao mercado de trabalho. As
empresas podem sair do período eleitoral com mais previsibilidade para
planejar. Podem voltar a investir, contratar e expandir. Mas existe um desafio
que nenhuma eleição resolve: engajar pessoas que perderam a confiança de que
suas escolhas fazem diferença. Porque contratar não é necessariamente engajar. Um
salário coloca alguém na folha de pagamento. Não necessariamente coloca alguém no propósito. Uma função dá
ocupação. Não
necessariamente dá pertencimento. Um treinamento desenvolve competências. Não
necessariamente desenvolve esperança. E talvez esse seja um dos grandes desafios da
gestão de pessoas nos próximos anos. Em um mercado de trabalho cada vez mais
tecnológico, empresas precisarão oferecer mais do que empregos. Precisarão construir
ambientes nos quais as pessoas percebam que sua contribuição importa, que suas
ideias são ouvidas e que existe espaço para crescer. A tecnologia pode
automatizar tarefas. A Inteligência Artificial pode ampliar a produtividade.
Novos modelos de trabalho podem transformar profissões. Mas nenhuma tecnologia
resolve a falta de sentido. Nenhum agente de IA consegue criar pertencimento. E
nenhuma ferramenta substitui a relação de confiança entre pessoas. As eleições
podem mudar o ambiente externo. Dentro das empresas, entretanto, permanecerá
uma pergunta muito mais difícil: Como fazer com que as pessoas acreditem
novamente que aquilo que fazem importa? Talvez esse seja um dos maiores desafios do mercado
de trabalho de 2030. Não apenas encontrar pessoas para trabalhar.
Mas construir organizações nas quais elas queiram fazer parte.
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