Nas duas últimas
semanas, fizemos uma pergunta que há pouco tempo pareceria estranha em uma
reunião de recrutamento: uma determinada necessidade deve ser atendida por um
profissional CLT, um freelancer ou um Agente de Inteligência Artificial? Na
primeira parte, descobrimos que a pergunta mudou. Na segunda, percebemos que
não existe uma resposta única. Agora precisamos dar um passo além. E se a
resposta não estiver na escolha de um modelo, mas na combinação deles? Durante
muito tempo, pensamos a empresa como uma estrutura formada essencialmente por
pessoas. Depois vieram as terceirizações, os profissionais por projeto e os novos
formatos de trabalho. Agora, os Agentes de IA começam a ocupar espaços que
antes eram exclusivamente humanos. Isso não significa que a empresa do futuro
será menos humana. Pode significar exatamente o contrário. Um levantamento
divulgado em junho deste ano mostra que 18% das empresas brasileiras já
integraram agentes de Inteligência Artificial aos seus fluxos de trabalho,
acima da média mundial de 13%. O estudo, realizado pela GFT com dados da BCG,
aponta justamente para uma transição dos projetos experimentais para aplicações
empresariais escaláveis. Mas há outro
dado que chama ainda mais a atenção. Uma pesquisa global da Gensler, realizada
com mais de 16 mil profissionais em 16 países, identificou que os chamados AI
Power Users — aqueles que utilizam IA com maior frequência — passam menos
tempo trabalhando sozinhos, mais tempo aprendendo e relatam relações mais
fortes com suas equipes. Ou seja,
talvez estejamos diante de um paradoxo interessante: quanto mais a tecnologia
assume determinadas tarefas, mais valor pode ser liberado para aquilo que
continua essencialmente humano — aprender, colaborar, criar, decidir e
construir relacionamentos. Uma organização poderá ter profissionais CLT
preservando sua cultura e desenvolvendo relacionamentos; especialistas externos
trazendo conhecimento específico quando necessário; e Agentes de IA executando
tarefas repetitivas, analisando informações e apoiando decisões. O desafio
será descobrir onde cada um gera mais valor. É aqui que a discussão deixa
de ser sobre contratação e passa a ser sobre estratégia organizacional. Não
basta perguntar quanto custa contratar uma pessoa. Será preciso avaliar o custo
da atividade, o valor do conhecimento, a velocidade necessária, o impacto sobre
a cultura e aquilo que realmente exige inteligência humana. Também será preciso
cuidado com uma armadilha da tecnologia. Se todas as empresas utilizarem as
mesmas plataformas, os mesmos modelos e até prompts semelhantes, poderemos
assistir a uma curiosa padronização de soluções. A Inteligência Artificial pode
ampliar a capacidade das organizações, mas não garante, sozinha, diferenciação.
Quando a tecnologia se torna acessível a todos, a vantagem competitiva volta a
estar na capacidade de fazer perguntas melhores, tomar decisões melhores e
conectar tecnologia a pessoas. Talvez seja esse o verdadeiro papel do RH no
Mercado de Trabalho 2030. Não escolher entre pessoas e tecnologia. Desenhar a
combinação capaz de produzir melhores resultados. As empresas vencedoras não
serão as que substituírem pessoas por Inteligência Artificial. Nem as que
resistirem à tecnologia. Serão aquelas capazes de integrar pessoas,
especialistas externos e agentes digitais em torno de um mesmo propósito. A
empresa híbrida não será aquela que terá mais tecnologia. Será aquela que
souber onde colocar a tecnologia e onde preservar o humano. E talvez essa seja
a pergunta que substituirá todas as outras: Não "quem vamos
contratar?", mas "qual combinação de pessoas e tecnologia fará nossa
empresa melhor?" O futuro do trabalho não escolherá um lado. Nós é que
teremos de escolher como construir esse futuro.
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