"Uma criança, um
professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo."
Malala
Yousafzai
No artigo da semana
passada concluí que o mercado de trabalho brasileiro não sofre com a falta de
pessoas, mas com o excesso de desencontros. Prometi voltar a um dado que merece
uma reflexão exclusiva. Entre os 6,2 milhões de jovens brasileiros que não
estudam nem trabalham, a maioria é formada por mulheres. Quando descobrimos
isso, o problema deixa de ser estatístico. Ele passa a ter rosto. Por trás
desse indicador existem histórias de jovens que interromperam os estudos,
assumiram precocemente responsabilidades familiares, enfrentaram a maternidade
sem uma rede de apoio ou simplesmente não encontraram oportunidades para
iniciar sua trajetória profissional. Mais do que um desafio econômico, estamos
diante de uma questão social que compromete o futuro de uma geração inteira. Enquanto
isso, outro movimento acontece dentro das empresas. Nas últimas reuniões com
clientes, tenho iniciado a discussão sobre uma vaga de forma diferente. Antes
de definirmos o perfil do candidato, faço uma pergunta que, até pouco
tempo atrás, simplesmente não existia: essa necessidade será atendida por um
profissional contratado pelo regime CLT, por um freelancer ou por uma solução
baseada em Inteligência Artificial? Essa mudança revela que o mercado já não está
apenas escolhendo pessoas. Está redesenhando o próprio conceito de trabalho. Mas
justamente quando a tecnologia amplia as possibilidades das organizações,
milhões de brasileiros ainda lutam pelo básico: concluir os estudos, conquistar
o primeiro emprego e desenvolver competências para participar dessa nova
economia. Essa talvez seja a maior contradição do nosso tempo. Discutimos
Inteligência Artificial, agentes autônomos e automação de processos, enquanto
uma parcela significativa da população ainda busca acesso ao conhecimento que
lhe permita competir em igualdade de condições. Como especialista em
Recrutamento e Seleção, aprendi que currículos contam apenas parte da história.
Cada entrevista revela uma trajetória única, marcada por escolhas, desafios e
oportunidades — ou pela ausência delas. Desenvolver pessoas deixou de ser uma
responsabilidade exclusiva das escolas. Tornou-se um compromisso compartilhado
entre empresas, educadores e toda a sociedade. A tecnologia continuará
evoluindo. Novas profissões surgirão, outras desaparecerão. Mas nenhuma
inovação substituirá o poder transformador da educação. Talvez o maior desafio
do mercado de trabalho não seja apenas criar vagas. Seja garantir que as
pessoas tenham condições de ocupá-las. Porque, quando os números têm rosto,
investir em educação deixa de ser uma escolha. Torna-se um compromisso com o
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