Na semana passada, ao
comentar a excelente palestra de Silvia Boni no GRHUPIRA sobre saúde mental no
trabalho, refletimos sobre um dos maiores desafios atuais das organizações:
cuidar das pessoas. Mas, antes mesmo de cuidar das equipes, muitas empresas estão
enfrentando uma dificuldade ainda maior: encontrá-las. A escassez de mão de
obra deixou de ser uma preocupação restrita a funções altamente especializadas.
O fenômeno já alcança áreas operacionais, administrativas e comerciais.
Empresas que há poucos anos recebiam dezenas de currículos para determinadas
vagas hoje encontram dificuldade para atrair candidatos aderentes. A pergunta
que surge é inevitável: quem serão as equipes que precisaremos cuidar no
futuro? A resposta passa por uma transformação que está ocorrendo em três
frentes simultaneamente. A primeira delas é demográfica. O Brasil vive um
processo gradual de envelhecimento populacional. Há menos jovens ingressando no
mercado de trabalho do que havia décadas atrás. Em termos simples: haverá menos pessoas disponíveis para ocupar
as vagas que continuarão surgindo. A segunda transformação está relacionada às expectativas
profissionais. Durante muito tempo, o emprego formal representou praticamente a
única alternativa de crescimento e estabilidade financeira. Hoje, a realidade é
diferente. É impossível discutir o futuro do trabalho sem falar sobre
remuneração. Do lado das empresas, os encargos trabalhistas elevam
significativamente o custo da contratação. Do lado do trabalhador, descontos e
tributos reduzem o valor efetivamente recebido ao final do mês. O resultado é
uma percepção curiosa: muitas vezes o custo para contratar é alto para a
empresa, enquanto a remuneração continua sendo considerada baixa pelo
profissional. Ao mesmo tempo, surgiram alternativas que disputam espaço com o
emprego tradicional. Aplicativos de transporte, entregas, comércio digital,
produção de conteúdo, prestação de serviços online e diversas formas de
empreendedorismo passaram a compor o cardápio de opções de renda, especialmente
para os mais jovens. Pela primeira vez, muitas empresas não competem apenas com
seus concorrentes na busca por talentos. Competem também com plataformas
digitais, aplicativos e novos modelos de trabalho. A terceira transformação é
tecnológica. Inteligência Artificial, automação e digitalização estão mudando
profissões inteiras. Algumas atividades desaparecem, outras são reinventadas e
novas ocupações surgem em uma velocidade que desafia empresas, escolas e
profissionais. Peter Drucker afirmou que "a melhor maneira de prever o
futuro é criá-lo". Talvez seja exatamente esse o desafio das organizações
atuais. Esperar que o mercado resolva sozinho a falta de profissionais pode não
ser uma estratégia sustentável. Da mesma forma, Alvin Toffler advertiu que
"os analfabetos do século XXI não serão aqueles que não sabem ler e
escrever, mas aqueles que não conseguem aprender, desaprender e
reaprender". Essa reflexão vale para profissionais, líderes e empresas.
Talvez o maior erro seja acreditar que as equipes do futuro serão iguais às do
passado. Elas terão outras expectativas, outras habilidades, outras formas de
trabalhar e, principalmente, outras formas de enxergar a relação entre vida e
trabalho. E isso nos leva à próxima reflexão: se os profissionais mudaram, como
as empresas podem se tornar mais atrativas para atrair, desenvolver e reter
esses talentos? Falaremos sobre isso no próximo artigo. E, só para a gente
pensar: durante décadas as empresas disputaram profissionais com outras
empresas. Hoje, em alguns casos, a concorrência pode ser um aplicativo
instalado no celular do candidato. O mercado mudou. A pergunta é: estamos
preparados para mudar com ele? #futuro #mudança #pessoas